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Janira Hopffer Almada, amnésica, acusou o Governo de manipular a comunicação social pública. O ministro Abraão Vicente respondeu negativamente e com razão. Não em tudo.

A Comunicação Social Pública sabemos o que é. Na verdade, a TCV, porque a rádio e a agência Inforpress têm feito melhor. E quando os políticos apontam o dedo aos media do Estado estão, no fundo a referir-se à TV pública.

Pois bem, no passado dia 5 (que se comemora pelo segundo o Dia nacional do Jornalista) a líder do PAICV, Janira Hopffer Almada, veio a terreiro com lanças e machados (mas sem o escudo, enquanto arma de defesa) contra o Governo que acusa de estar a manipular a imprensa.

Selectivamente amnésica – porque se esqueceu do período paicvista no governo em que as notícias mais pareciam tempos de antena do partido e jornal de propaganda do executivo de que fazia parte –, JHA disse então que tem assistido perplexa “a sinais preocupantes por parte dos órgãos de Comunicação Social públicos” no que concerne à liberdade da imprensa, dando como exemplos a redução de matérias sobre violência no país, o cancelamento de programas de debates, acantonamento de alguns profissionais e o tratamento diferenciado que a imprensa do estado vem dando aos sujeitos políticos, em detrimento dos membros do Governo. 

Sentindo-se ferido no orgulho na função, o ministro da Cultura e Indústria Criativa, que tutela a comunicação Social, utilizou o Facebook para reagir aos ataques da amiga pessoal e inimiga politica. “A líder da oposição diz que há sinais de condicionamento da liberdade de imprensa, mas não diz quais nem mostra provas concretas”, começou por escrever Abraão Vicente.

E na frase seguinte, o ataque aos profissionais de comunicação social: “Alguma imprensa publica esta notícia sobre estas declarações, mas ninguém questiona quais os sinais e onde estão as provas. Basicamente aceitou-se em silêncio que a líder da oposição declarasse em alto e bom tom que a comunicação social deixa-se manipular e ao contrário de outros tempos ninguém da classe diz nada. Estranho País este”.

E num post ainda mais recente, o ministro volta ao tema para lembrar que “o mercado do trabalho tem olhos”. “Por exemplo, quando vêm me falar do jornalismo, da parcialidade de algumas peças noticiosas e de linhas editoriais de alguns jornais pergunto sempre quem fica prejudicado, o jornalista e o órgão que dá a notícia de forma parcial ou a instituição e a pessoa que fica afectada? Não tenho dúvidas que o mais prejudicado é o jornalista ou o órgão, pois revela inabilidade ou incompetência”.

Convenhamos que o ministro tem sim razão quando tenta evidenciar um certo relaxamento dos profissionais dos órgãos públicos, porque os jornalistas têm de deixar de ser mocinhos de recado dos governantes (como aconteceu desde sempre) e saírem em busca de noticias, percorrer o país real.

Mas o ministro volta a falhar no método que utiliza (o facebook) para melhorar o desempenho de jornalistas que são seus funcionários. Ou seja, Abraão humilha publicamente uma classe de que é tutela e espera, a seguir, que esses mesmos profissionais lhe tenham respeito e consideração.

Ademais, o próprio ministro sabe que há sempre tentação dos governantes para ter a imprensa do seu lado, isso é universal e imutável. Talvez por isso, o ministro Abraão Vicente afastou, sem negociar, a anterior administração da RTC, da Inforpress e a direcção da TCV nomeando pessoas amigas e afectas ao seu partido para o cargo. Pior, fê-lo sem levar o assunto ao Conselho de Ministros, e sem solicitar o respectivo parecer da Autoridade de Comunicação Social, que é obrigatório por lei.

Por isso mesmo, o processo – que nomeava também o jornalista António Teixeira para director da TCV – teve que ser suspenso até que a ARC aceitasse os nomes propostos. A ARC poderia anular o processo, mas, à moda cabo-verdiana, preferiu ‘dexa bai’. 

A arte da manipulação tem muitas nuances, não?